No mundo dos negócios, todo mundo já ouviu falar na produção em massa de Henry Ford. O fundador da fábrica de automóveis – que até hoje leva seu sobrenome – desenvolveu um método de gestão baseado em linhas de montagem, aperfeiçoando o conceito de divisão do trabalho, que revolucionou o mercado mundial no início do século XX.

Na década de 1980, pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) analisaram a indústria automobilística mundial e constataram que a japonesa Toyota havia desenvolvido um novo modelo de gestão extremamente enxuto e eficiente. Esse método foi batizado de “lean manufacturing”, que em tradução livre significa “manufatura enxuta”.

O método da Toyota se mostrou tão eficiente que suas transformações extrapolaram o mercado automobilístico. O setor de tecnologia da informação, que tem a inovação como condição de sobrevivência, incorporou muitos princípios da filosofia lean, especialmente no segmento de desenvolvimento de softwares.

No mercado de TI, em paralelo ao método lean, desenvolveu-se uma filosofia de desenvolvimento de softwares denominada “métodos ágeis”. Com a facilitação do acesso à tecnologia no final da década de 1990, os processos de desenvolvimento de software se mostraram ineficientes para atender ao crescimento exponencial da demanda por diversos tipos de aplicativos. Baseados numa extensa documentação, com microgerenciamento de cada etapa do processo em cascata, essas metodologias ficaram conhecidas como “métodos pesados”.  Em meados dos anos 2000, surgiu uma nova abordagem, os “métodos leves”, que posteriormente foram incrementados e batizados de “métodos ágeis”.

Como veremos a seguir, o lean manufacturing e as metodologias ágeis são uma eficiente combinação e estão se fundindo, dando origem a um novo método de desenvolvimento de software. Continue acompanhando:

Boas ideias ágeis

Um exemplo de como os métodos ágeis podem gerar bons resultados ocorre na SAP, fabricante de sistemas de ERP para grandes empresas. Após anos de adoção do SCRUM e outras metodologias ágeis, os custos gerais, esforços de implantação, sincronização e integração foram drasticamente reduzidos. Em uma entrevista à Forbes, em 2010, o Chief Operating Officer (COO) de soluções corporativas, Herbert Illgner, declarou que a companhia estava adotando as metodologias ágeis e a filosofia lean em escala mundial, em todo o processo de desenvolvimento de seus softwares. De lá até aqui, a SAP se consolidou como a maior fabricante de softwares de gestão empresarial do mundo, adquirindo, em 2014, uma das suas principais concorrentes.

As técnicas de desenvolvimento ágil são focadas em garantir a satisfação do consumidor, fazendo entregas rápidas e contínuas de softwares funcionais, absorvendo mudanças no escopo do projeto durante seu desenvolvimento e, principalmente, prezando pela simplicidade. O agile – termo em inglês para as práticas ágeis – tem na flexibilidade sua maior marca. Isso significa a realização de projetos em que a conversa com o cliente é o que direciona os próximos passos, aumentando a aderência ao modelo de negócio do comprador e trabalhando focado naquilo que é um problema para quem compra — e não para quem vende. A era dos softwares de gestão de prateleira, definitivamente, já passou.

Boas ideias lean

A filosofia lean, por sua vez, é baseada na minimização de gargalos e desperdícios. Também se caracteriza por ser altamente flexível e aberta à mudança. Ao se falar em gestão baseada no processo lean, podemos estabelecer 6 pilares nos quais todo o modelo se sustenta:

  • qualidade total em tempo real;
  • diminuição do desperdício poupando recursos escassos;
  • melhoria contínua;
  • produtos apresentados ao cliente durante o desenvolvimento;
  • flexibilidade;
  • construção de relacionamentos com os consumidores.

No caso da Toyota, a principal revolução foi a adoção do estoque mínimo: com uma logística necessariamente eficiente, reduziu brutalmente a depreciação de carros no pátio, custos operacionais e com seguros, bem como os custos de formação e manutenção do estoque, que pesam bastante no setor. As lojas trabalham com poucas unidades em casa, fazendo os pedidos à medida que surge a demanda.

Trazendo esse cenário para as empresas de software, em que o produto final é algo lógico e intangível, percebemos a versatilidade do método: ao desenvolver um conjunto mínimo de recursos e funcionalidades, apresentá-lo ao cliente para receber feedbacks e, a partir desse retorno, desenvolver os próximos recursos e funcionalidades, a empresa de software reduz seu custo operacional, tanto financeiro quanto de alocação humana e tempo de trabalho. Afinal, desenvolver um produto com todos os recursos para só depois apresentá-lo e validá-lo junto ao cliente vai certamente requerer um esforço maior de programadores e dos equipamentos, além de maior tempo de trabalho, e pode, ao final, não atender plenamente àquilo que o cliente espera.

Mistura da cultura lean e cultura agile

Após entender melhor sobre o lean e o agile, fica claro que um complementa e potencializa o outro. Ao analisar os desperdícios que o lean manufacturing busca reduzir, fica bem mais fácil entender como eles estão se fundindo:

Retrabalho

Gerar um software que atende ao escopo, mas não resolve o problema do cliente, já que,  muitas vezes, ele não tem absoluta clareza do que deseja, e, somente quando recebe o produto é que se torna capaz de identificar sua verdadeira demanda. Na abordagem tradicional, isso significaria um novo projeto completo, gerando retrabalho. Na nova abordagem, como o feedback acontece durante o projeto, não há esse risco.

Espera de recursos produtivos

A hora de trabalho da equipe de desenvolvimento é um dos principais custos das empresas de software. Cada minuto em que eles ficam ociosos, aguardando pela aprovação do cliente para seguir com o desenvolvimento, é um problema. Ao adotar metodologias ágeis, as entregas constantes de pacotes pequenos de recursos garantem que o tempo de trabalho será aproveitado ao máximo, pois o próximo pacote começa a ser desenvolvido imediatamente. Isso significa menor ociosidade da equipe.

Movimentação

Sabe o eletricista que interrompe a instalação por ter esquecido o multímetro? Ele vai buscar na oficina e, quando volta, percebe que esqueceu a chave de fenda, precisando voltar novamente. Na empresa de software, ao reunir todos os recursos e ferramentas necessárias para aquela etapa de desenvolvimento, como porções de códigos já implementados, poupa-se tempo, pois não há necessidade de parar o processo para buscar pelo recurso. Pode parecer bobagem, mas imagine uma empresa com 120 programadores e que cada 1 deles leve 1 minuto para localizar o arquivo que vai precisar no momento em que está desenvolvendo. Isso significa 2h a menos de trabalho da equipe, desperdiçadas sem necessidade.

Estoque

Trabalhar com produtos intangíveis significa trabalhar com um estoque de informações. Ao adotar técnicas ágeis de documentação, evita-se armazenar dados desnecessários para o desenvolvimento do pacote, diminuindo o custo com recursos de hardware e o tempo de pesquisa e catalogação dos dados.

Transporte

Transferir grandes quantidades de informações entre bancos de dados, sistemas e servidores é algo demorado, mesmo com a evolução vertiginosa das redes de comunicação. Por isso, a transmissão gradual dos recursos, à medida que vão sendo implantados, torna todo o processo mais rápido, simples e tranquilo, tanto para a empresa quanto para o cliente.

Processamento Excessivo

Compilar um produto final complexo, a exemplo dos sistemas de ERP, pode se tornar algo demorado e custoso. Ao trabalhar com compilações dos módulos ou pacotes de recursos, gerando produtos que são peças do quebra-cabeça final, o processamento é bem mais rápido e menos complicado.

Desconexão

Se a equipe de desenvolvimento não estiver alinhada com o que o cliente deseja, a chance de desconexão do produto final com a demanda do cliente é alta. As práticas ágeis garantem que, ao longo do desenvolvimento, o feedback do cliente minimize o risco de desconexão, evitando o retrabalho.

Viu como as abordagens se misturam? Essa união entre lean e agile certamente ainda vai dar muito o que falar. E você, como enxerga esse novo método híbrido que está surgindo? Deixe seu comentário e compartilhe esse post nas suas redes sociais!