Qual, afinal, o papel do CIO nesse mundo de transformação digital, amparada pela adoção das práticas de agilidade e Lean?

Essa é a principal questão colocada por Mark Schwartz no livro “A Seat at the Table: IT Leadership in the Age of Agility”. Para respondê-la, ele faz uma fantástica e profunda revisão dos principais temas com os quais o CIO deve lidar nesse novo cenário.

Na minha visão, esse livro se tornará um clássico.

Uma obra seminal, a ser referenciada por todos. Minha ansiedade para disseminar as provocações de Mark Schwartz é muito grande. Decidi então, fazer um pequeno resumo de cada capítulo.

Claro, o resumo tem interpretações minhas e não tem pretensão de ser exaustivo. Meu principal objetivo, na verdade, é fazer com que quem leia o resumo compre o livro e transforme sua organização! Um pequena semente, que pode render frutos!

Hoje falo sobre o primeiro capítulo, cujo título é “Sitting Alone”.

Sitting Alone

Esse primeiro capítulo começa, eu diria, cutucando uma ferida.

O CIO, na forma convencional em que ele age (forma esta, inclusive, prescrita por quase toda literatura voltada para os CIOs) realmente atua de forma estratégica? Ele é realmente um par de seus C-colegas?

Não é bem essa a realidade enxergada por Marck Schwartz. O que ele enxerga é que os CIOs, quando conseguem gerar valor, fazem isso em resposta às solicitações da área de negócios.

A TI é muito mais um departamento voltado para “atendimento ao cliente” do que uma unidade que contribui para o negócio de forma autônoma. Uma das maiores preocupações do CIO é provar, o tempo todo, que a TI está gerando valor. Só o fato do CIO ter que provar o tempo todo que ele está gerando valor já mostra que ele não é um igual nessa mesa estratégica.

Pois é, claro que outros departamentos têm que gerar valor – marketing, vendas. Mas, eles não têm que ficar fazendo decks de apresentação provando isso o tempo todo. Eles têm os compromissos com resultados. Agem para gerar os resultados e tem a confiança da organização de que serão capazes de tomar as decisões apropriadas.

Não existe um “escopo” estrito, detalhado, fechado, que eles têm que atender, mas sim metas a serem cumpridas.

E mais do que isso, eles estão sentados à mesa para levarem também as suas perspectivas para a atuação estratégica. E, não para somente reportarem o que fizeram e entenderem o que deve ser feito.

O foco do CIO acaba sendo, portanto, muito mais o de provar que ele é capaz de entregar tudo que foi combinado, dentro dos SLAs estabelecidos. Do que, de fato, trabalhar colaborativa e estrategicamente com os demais colegas.

Nesse sentido, o CIO pode até estar sentado à mesa, mas ele está sozinho.

E esse problema de solidão vai além desse nível estratégico.

papel do CIO

Se levarmos em consideração que a maior parte das organizações está adotando o caminho de agilidade e Lean – e isso vem ocorrendo de forma inexorável. Vemos que o CIO se encontra com um novo problema:

Qual é o papel do CIO nesse contexto, composto por equipes auto organizadas, que devem ter autonomia para tomar decisões diretamente com o negócio?

E para agravar essa situação, esse papel não fica claro em nenhum tipo de literatura. Um estudo da literatura direcionada especificamente para os CIOs mostra que, na sua maioria, essa literatura foca em habilidades e competências tradicionais, que irão tornar a TI uma excelente provedora de serviços para o negócio – como apontado anteriormente.

Por outro lado, a literatura ágil praticamente não fala da liderança sênior de TI . Quando fala, coloca essa liderança mais como alguém que deveria sair do caminho do que alguém que poderia de fato ajudar os times ágeis.

É essa ferida, então, que o autor quer expor, logo no primeiro capítulo. A solidão do CIO. Solidão em relação aos seus pares e em relação à sua equipe.

E essa solidão será cada vez mais insuportável, pois o papel do CIO será cada vez mais relevante na transformação digital.

As referências da área de negócios agora são digitais. O contato com tecnologias de ponta, em todos níveis, já se tornou lugar comum. A área de negócios sabe que há empresas digitais que inovam em uma incrível velocidade, sabe que as tecnologias estão ficando cada vez mais baratas e disponíveis, sabe que a nova cultura é de experimentação.

Se o CIO continuar atuando exatamente da forma tradicional, ele ficará cada vez mais isolado. De um lado o negócio, com as expectativas sobre a agilidade; do outro os times ágeis, tentando criar o mindset de agilidade. No meio disso tudo, o CIO, tentando provar seu valor para todos.

Mas porque isso chegou a esse ponto? Esse é o tema do próximo capítulo.