Trajetórias negras no contexto digital e no agilismo
Quando falamos do contexto digital e trajetórias negras no agilismo, temos algumas pré-concepções de falarmos sobre times anti-frágeis, multidisciplinares, criativos e com várias outras características positivas. Nenhuma dessas concepções são errôneas, mas te convido a pensar que talvez, elas sejam incompletas se não analisadas em suas diferentes faces, e uma delas, é a face da diversidade e inclusão de pessoas negras.
Na última década, o mercado de tecnologia da informação teve um aumento de 70% no número de contratação de pessoas, mas, em contrapartida, apenas 2,8% deste mercado é formado por pessoas negras e 20,5% por pardas (dados de 2019).
No dia a dia da área, temos uma realidade em que em 68,5% dos casos, as pessoas negras representam um máximo de 10% das pessoas nas equipes de trabalho em tecnologia, segundo aponta uma pesquisa da Preta Lab em parceria com a Thoughtworks de junho de 2019. Também, em 32,7% dos casos, não há nenhuma pessoa negra nas equipes de trabalho em tecnologia, o que deveria nos servir de alerta quando contrapomos o dado aos 54% da população negra no Brasil.
Falando ainda através de números, a população negra representa 64,2% dos 13 milhões de desempregados no Brasil e 66% dos subutilizados (Segundo o IBGE, é considerado subutilizado todo aquele que está desempregado, que trabalha menos do que poderia, que não procurou emprego, mas estava disponível para trabalhar ou que procurou emprego, mas não estava disponível para a vaga). Além disso, os negros somam 75,2% do grupo formado pelos 10% mais pobres da população.
Sumário
As consequências do racismo estrutural na TI
Como consequência a persistência do racismo na sociedade brasileira, todo esse triste recorte do cenário tecnológico brasileiro vem da estrutura básica do nosso país, sendo preciso, para compreender, dar um passo atrás e verificar como ocorre a formação dos negros no Brasil para a entrada neste mercado:
Segundo pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 1992, apenas 1,5% dos jovens negros cursavam o ensino superior. Em 2015, essa taxa pulou para 12,5%, constituindo 50% em relação à taxa dos jovens brancos cursantes no ensino superior (razão que era de apenas 20,6% em 1992). Esse, ainda não é o número que reflete a realidade da composição da nossa sociedade, mas tem contribuído, ainda que lentamente, para enegrecer o cenário digital e agilista que conhecemos.
Hoje, sou Gerente de Produto aqui na dti e ocupo uma posição que muitas vezes me perguntei em ocupar por não ter tido um grande quadro de referências durante a minha trajetória. Fiz curso de técnico em informática, posteriormente me formei em sistemas de informação, mas não tive muitas referências de profissionais ou professores negros nessa jornada profissional, principalmente após a entrada na área de Produtos. Hoje, entendo que sou exceção e represento através do cargo que ocupo, uma possibilidade para que outros profissionais negros possam sonhar em trilhar uma carreira na área tecnológica.
Precisamos aumentar o protagonismo e incentivar as trajetórias negras nos nossos times tecnológicos e o primeiro passo para chegar lá, é reconhecer que este cenário ainda não existe na maioria desses espaços e dar recinto para que não cometamos os erros passados de apagar homens e mulheres negras que alcançaram grandes conquistas no cenário tecnológico e de inovação. Precisamos expandir nosso olhar.
O racismo no algoritmo
Quando falamos em apagar homens e mulheres negras, um novo paradigma surge com o advento da inteligência artificial: os algoritmos racistas. Não estamos apenas falando sobre não reconhecer ou esquecer as trajetórias negras, mas estamos discutindo um novo contexto em que essas pessoas são literalmente apagadas.
Na inteligência artificial, os algoritmos são criados para orientar a máquina a processar (pense aqui como se fosse pensar) de forma autônoma. Isso permite que agora as máquinas não apenas apoiem, mas também possam compreender contextos e propor soluções para os diversos problemas do cotidiano.
Os humanos treinam e “ensinam” a máquina, fornecendo dados que eles próprios criam, para permitir esse auto processamento. Como mencionamos aqui, menos de 3% da área de tecnologia no Brasil é composta por negros, e essa disparidade não é incomum no restante do mundo.Com a persistência do racismo na sociedade brasileira, temos um retrato comum de homens brancos, héteros e de classe social média ou alta programando algoritmos a como reconhecerem e processarem os dados que recebem.
O resultado de tudo isso pode ser percebido por casos que vemos divulgados na imprensa como:
- prisões de homens negros reconhecidos erroneamente por sistemas de reconhecimento facial;
- aplicativos de celular e filtros de redes sociais que estimulam mudanças em fotos como afinamento do nariz e clareamento da pele, reforçando estereótipos discriminatórios de beleza;
- aplicativo do Google que confude fotos de negros com gorilas;
E poderiam ser citados outros exemplos. Este é um retrato que mostra o grande impacto negativo que a falta de profissionais e sua representatividade na construção de soluções podem causar na sociedade.
Trajetórias negras no contexto digital e agilismo
Incentive pessoas negras a ingressarem no mercado de TI e contribuírem com a revolução digital que o agilismo já tem proporcionando ao mercado. Existem várias comunidades e programas de incentivos ao ingresso de pessoas negras no mercado de TI que você pode seguir, acompanhar e apoiar. Veja algumas trajetórias negras que podem te inspirar:
Preta Lab – https://www.pretalab.com/
Afropython – https://afropython.org/
UX para minas pretas – https://www.linkedin.com/company/uxparaminaspretas/
Kilombo Tech – https://www.instagram.com/kilombotech/
Mais Diversidade – https://maisdiversidade.com.br/
ID_BR – Instituto Identidades do Brasil – https://www.linkedin.com/company/id_br/
Engajafro – https://www.linkedin.com/company/engajafro/
Outras indicações
Vários profissionais negros discutem suas trajetórias em duas redes. Seja para conhecer suas histórias, ou para tentar “incentivar” o algoritmos da sua rede social a te mostrar mais perfis afins (afinal, a tecnologia não é neutra), nós acreditamos que vale acompanhar alguns perfis. Veja algumas referências:
Nara Bispo (Psicóloga | Tech Recruiter | RH ágil | PCD) – link
Janaína Lopes (Coordenadora de Projetos Digitais | Gestão 3.0 | MBA | CSM)- link
Ana Minuto (Consultora Empresarial e Carreira I Especialista em Diversidade Racial Palestrante I Mentora RME I Aceleradora Startup.) – link
Abraão Sena (CHRO at Rocketseat | Diversity | Scale-Up Endeavor 2021) – link
Felipe Dutra Furtado (Gestor TI | Big Data & AI at Globo.com) – link
Vania Neves (CTO na Vale) – link
Conclusão
No início deste artigo, falei sobre as pré concepções que temos ao falarmos sobre times ágeis: anti-frágeis, multidisciplinares, criativos dentre outras características. A partir disso, te convidei a entender mais profundamente sobre como a inclusão (ou a falta dela) de trajetórias negras. E pode considerar aqui também, outros recortes de diversidade – podem tornar o agilismo e a transformação digital em sua organização falhos.
Afinal, se no time da construção de um produto falta parte das pessoas que o consomem, então temos fragilidade. Isto é, carência de multidisciplinaridade e escassez de possíveis críticas direcionadas a contextos sociais que podem impactar na concepção de soluções. Falar de agilidade e digitalização, também é falar sobre diversidade. Será que podemos juntos enegrecer a TI e atingir um novo nível de maestria no contexto digital e ágil?
Tem interesse em fazer parte de um time que fomenta a diversidade na prática e capacita seus colaboradores constantemente? Então acesse nossa página de carreiras, escolha a vaga que mais se encaixa no seu perfil e venha ser dti!
Links de apoio
https://www.thoughtworks.com/pt/enegrecer
https://sustentabilidaderacial.com.br/
https://www.pretalab.com/dados#/
https://issuu.com/institutoethos/docs/perfil_social_tacial_genero_500empr
https://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/TDs/td_2569.pdf
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